quarta-feira, 20 de abril de 2022

 

Euphonia pectoralis

                                                              Lua verde para nós

                    [uma transcri(a)ção poética, ao som de Chopin – "Nocturne Op. 9 Nº 2"]


Parte 1

Loba
Ela, elo perdido que talvez “Deus ouvirá”
em seu “desejo de amar”
descobrir-se
Que acabou enlaçada pelo
Mar
Marejou flores
No olhar
Um tanto pelo que desejava:
O próprio desejo de amar

Andorinha
A noite amá-la
À noite, há mar
Denso e resplandecente
Constatação por si
Em silêncio
Amar o véu do mar
O despudor do repenique
O som augusto do resquício
É preciso tanta noite para cantar?

Raposa
Não seria simples a fruição de um novo começo
Jogada na soleira dos dias
Em prol de um caminho desconhecido
Sem dias livres
Trancada no alambique das horas
Na labuta de sua vida
O corpo, um artefato sonoro
que deveria limpar os móveis
Para depois poder sonhar: 
Ismália enlouquecida
Passeio sonoro notívago

Coruja
Não era minha nem sua vida
Mas era uma pessoa como outra qualquer
Designada para ser luz
Avistando uma hora única

Hiena
Só que, um dia, pensou em recomeçar e inventou 
Aquilo que não poderia ter
Asas amplas no caleidoscópio do breu
Era preciso voar mais longe

Abelha
Porém ela, qual Ícaro em fetiche
Enviesado
Escolheu somar 
as ondas à neblina dos seus olhos
a chuva sinalizou desajeitadamente a existência do seu corpo
e ela, janela sonora como outra qualquer
carne eclodida
nasceu no ar
sobressaltando a noite
pulando em prol da nova manhã
Se deu um nome:
E voou.


Parte 2


Ismália

[10:30]
A liberdade,
Verde fluorescente
Ciclina multifuncional
Repleta de peptídeos
Saudáveis
Transição de acidez à doçura
Powerful activity
Verde com
Luzes gitanas
Superando
Arranha-céus

[10:40]

As escadarias percorridas
Nas varandas celestes
Te Quiero verde
Tu verde cuerpo sobre
La mar
amar
el desconocido
Y amar el desconocido hasta el anochecer
con tu carne satinada
en neblina
Pulsando
En las caballerías
Salvajes de la mar


[17:59]

A película das manhãs
Aglutinada às noites
Organograma de sensações
Desconfiguradas
E hiperbólicas
Antenadas
Às feições dos dias
Aos lumes de prata

[20:30]
São pássaros elaborados 
Na madeira de mogno
Não são
Jamais são cruzes carregadas
Aves sãs que se descolam
Porque
Se somam ao ar

[00:00]
Novas asas
Asas reais

Te Quiero

Quiero verte

Verdes pastagens
Densas ramagens
Belas
Paragens

(em cada minuto)
Em que está você.




Euphonia pectoralis



                                                                  Lua verde para nós

                           [uma transcri(a)ção literária, ao som de Chopin – "Nocturne Op. 9 Nº 2"]



Hoje, em meio à densidade de acontecimentos que nos tomam a vista, os bichos vieram apresentar o programa. Por que não poderiam? As alternativas estão escassas a cada passo dado por você. Compreende? Eu não gostaria de aceitar como um dado intransponível a sentença de morte da atualidade, bem próxima ao fato que Machado de Assis, em Brás Cubas, outrora nos contara, em suas palavras finais: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Me soaria rude te dizer isso. Mais uma vez. Neste século. Não poderíamos aceitar a sucessão de desamparos e lacunas. Precisamos, enfim, ultrapassar o desfiladeiro desta mórbida realidade. Gostaria de aceitar o convite? Deixemos o sarau iniciar.


Parte 1

Loba

Eu contaria os minutos nesta prosa insólita a passar, entretanto,
na trama eu canto. Falo de Ismália. Ela, elo perdido que talvez “Deus ouvirá”.
Ela, em seu “desejo de amar”, de descobrir-se, que acabou enlaçada pelo
mar. Marejou flores no olhar; um tanto pelo que desejava: o próprio desejo de amar.

Andorinha


A noite amá-la, à noite, há mar. Denso e resplandecente. Constatação por si. Em silêncio. Amar o véu do mar. O despudor do repenique.
O som augusto do resquício. É preciso tanta noite para cantar? — se perguntava.

Raposa

Não seria simples a fruição de um novo começo. Jogada na soleira dos dias.
Em prol de um caminho desconhecido. Sem dias livres. Trancada no alambique das horas. Na labuta de sua vida. O corpo, um artefato sonoro que deveria limpar os móveis. Para depois poder sonhar: Ismália enlouquecida, passeio sonoro notívago.

Coruja

Não era minha nem sua vida. Mas era humana, era uma pessoa como outra qualquer
designada para ser luz. Avistando uma hora única.

Hiena

Só que, um dia, pensou em recomeçar e inventou Aquilo
que não poderia ter. Asas amplas no caleidoscópio do breu. Era preciso voar mais longe.

Abelha

Porém ela, qual Ícaro em fetiche enviesado. Escolheu somar as ondas. À neblina dos seus olhos. A chuva sinalizou. Desajeitadamente. A. Existência do seu corpo. E ela, janela sonora, como outra qualquer. Carne eclodida. Nasceu no ar, sobressaltando a noite, pulando em prol da nova manhã. Se deu um nome:
E voou.


Parte 2


Ismália


[10:30]

A liberdade,
Verde fluorescente
Ciclina multifuncional
Repleta de peptídeos
Saudáveis
Transição de acidez à doçura
Powerful activity
Verde com
Luzes gitanas
Superando
Arranha-céus

[10:40]

As escadarias percorridas
Nas varandas celestes
Te Quiero verde
Tu verde cuerpo sobre
La mar
amar
el desconocido
Y amar el desconocido hasta el anochecer
con tu carne satinada
en neblina
Pulsando
En las caballerías
Salvajes de la mar


[17:59]


A película das manhãs
Aglutinada às noites
Organograma de sensações
Desconfiguradas
E hiperbólicas
Antenadas
Às feições dos dias
Aos lumes de prata


[20:30]

São pássaros elaborados
Na madeira de mogno
Não são
Jamais são cruzes carregadas
Aves sãs que se descolam
Porque
Se somam ao ar



[00:00]

Novas asas
Asas reais


Te Quiero

Quiero verte

Verdes pastagens
Densas ramagens
Belas
Paragens

(em cada minuto)
Em que está você.



sábado, 2 de abril de 2022

Eu-nosso desmedido

 

''Ruínas de Selinunte'' (1950), Gregorio Prieto

 

Eu-nosso desmedido

 

Vivos corpos que soerguem o tempo

futuro com as vestes do passado

Chave larga

Fechadura minúscula

Fina realidade reduzida a pó

 

-vive o luto

-sente o luto

 

Caminham no entorno arruinado

Densa mortalidade compondo

A paisagem

Edifícios tomados pelo mar transviado

 

 

-suporta o luto

-carrega o luto

 

 

Corações despedaçados nos escombros

Espaço tombado da catástrofe

Sílabas pétreas desafiando os dados imaginários

Linhas e dobras viáveis para recomposição

Procuram-se, organizam-se

 

-atravessa o luto

-enfrenta o luto

-supera o luto



terça-feira, 29 de março de 2022

Recomeço portátil ou derivação kintsugi

 

Kintsugi de tigela


Nesta fissura tátil __________
relicário ________ lírico
luzente (r)achado,
podemos nos encontrar

Em meio ao apagamento 
material e às réstias de
pó perdido, ao vento
podemos nos encontrar

Pois temos o objeto incumbido
de redesenhar e (re)carregar
os destroços em nome de
uma peça auriginosa
resultado tátil retalhado
não retaliado
sinônimo de ardor

O frio original se desfaz quando
lá nos encaixamos
nossos corpos colados em lí-
quida aglutinação entre a 
trinca quente e a laca resinosa

Se podemos nos encontrar:
jogo silencioso
acontecimentos reformulados

Incidentes — cacos — cinzas
Intenção — cumbucas — ouro
casualidade dos rejuntes
adição de cor à tigela
e ao seu açúcar empedrado

defeito — mudança — incrustados
recipiente de sim cicatrizado
uma nova entrega da fome
remendada no livre trajeto de
substâncias sutis entrelaçadas

Um novo uso para a vida-cerâmica
e seu coração perolado
Uno craquelado das formas reboladas

Se, pelos dias, fissurada e esquecida,
antes despercebida passava
agora, límbica e estratégica 
inteireza apenas lembrada como
ponto de contato entre o estado da
falta e o da presentificação

Tal como uma tintura nanquim
de finíssima qualidade
todos os prismas em seus contornos
mapeados

Reparo / olho / reparo
as 1001 memórias
reinventadas

Reativação crítica integrada⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
estreita poética
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀na
densa realidade.⠀⠀⠀⠀



Poem-vagão ou Corredor humanitário

“The swan nº 1”, de Hilma Af Klint                                                                                         “The swan nº 1”, de Hilma Af Klint                 


Salto os olhos pelas páginas

e em Cada degrau

da estação tardia

 

Partida, partira, partiu, vamos?

não haverá mais tempo

parto e entrelaço minhas mãos

surrupiada manhã

esquecida por mim

no asfalto das eras

Diabo-lógicas

 

Deixaram o bilhete no chão

“nos beijamos amanhã”

“Até”, digo eu

Extraviada dos anos

desconhecida a matéria

dos sonhos por vir

 

O vagão vaguilongo vagueou

em meio às bombas

Instantes imprecisos, mas

floreando as ideias, pois você torcera

pelo branco das nuvens

ele a viver na paleta do

espírito e, ainda assim, deseja

sua trama em comunhão com a queda


manifestação férrea e sem rédeas,

em si, purpurizando a cadeia de acontecimentos

dispersos__ sem terra

 

Assalto minhas certezas

deixo o interminável tra(n)çar

caminhos

  

Meu irmão sonoro, o vento

balbucia folhagens pelo espaço

toco a memória

do fogo, carambolas em compotas

desligada dos trilhos

 

Apito

em meu corpo

cada mito –

côndria energiza e

ritualiza a etimologia do sol

Lanço-me à dança incerta

à crueza do chamamento longínquo

Captar o

Átrio,

ser em todos os lados

a miríade

Do sim

 

Mitologema

a percorrer

o real da via viva

Vida Espessa, expressa

espessa, Expressa e vibra:

minha peça,

nossa era.


Trilha trincada

 

Insta: @muminalab, “093 — desplegando sueños”.




Tarda muito para haver silêncio
raios de sol_________e eu rastejando
rastreio o rumor reincidente da rua

Eu, sorteio sonoro
sonho__________sibilino
eu nos outros

são sinos que surgem
somando sons

sigo e surjo
_________
rompante raro
em cada lado calado
E rasurado

Rojão da palavra:
ainda é tempo



sábado, 26 de fevereiro de 2022

 








Fundação lú-dica

Luciana Moraes


I.

Disposta a fisgar o sol, deixo

a minha casa de verão, amiga, amigo

rompo as figuras, as marcas e as camadas do papel

com linhas e cores ritmando as horas


II. 

Para absorver o encontro,

nos tocamos,

afogamos

os corpos em mais um dia

neste mar de sig-

nós e sua caçada de pontos preci(o)sos

Não fuja,

ca(n)to o invisível 

flor de intenções

somos conchas afiadas pelo

vento em água

como uma pipa empinada por você

bem-acabada


III.

Escrevemos e vemos como

nos dando as mãos

sobe a onda sobe o voo

nenhuma certeza, é tarde

mesmo assim, 

não desista: o que importa?

sou objeto urgente

nos vemos na próxima esquina

você, maleável 

elos ~ sopros ~ correm ~ em ~ silêncio

me conduz

mas ela diz, afiada,

/sou colorida & 

radica(liza)da no ar 

lá, ele diz /sou

manancial esgarçado, nada

entre rosas e sombras

ela diz /sou engraçada e subversa

à degradação

ele diz /estou em contentamento

ela /estou em contato,

beijando o

abis-

mó.